segunda-feira, 8 de junho de 2015

ANTÓNIO CÁNDIDO FRANCO | Mário Cesariny e Luiz Pacheco: a polémica


As relações de Mário Cesariny e de Luiz Pacheco constituem dentro do surrealismo português, ou das suas adjacências, no período que vai de 1966 a 1974, um verdadeiro campo de batalha. Nenhuma polémica foi dentro do movimento, e até fora dele na mesma época, tão prolongada, tão violenta e tão extensa como esta. Nenhuma outra contribuiu como ela para dividir os surrealistas portugueses, ou os próximos, em dois campos sem reconciliação – os que ficaram com Cesariny e os que seguiram Luiz Pacheco. Mas nenhuma outra apresenta também o choque catártico que nela em profundidade se desvela. Os dois conheceram-se em 1946, em Lisboa, no Círculo dos Amigos do Teatro, no quadro das actividades juvenis oposicionistas do MUD mas o seu convívio só se tornou próximo e efectivo no final da década e sobretudo no início da seguinte, em que Luiz Pacheco orientou a actividade da sua chancela, Contraponto, criada em 1950, para a edição dos surrealistas dissidentes que se haviam agrupado, desde o final de 1948, em volta de Cesariny e António Maria Lisboa.
Luiz Pacheco publicou em 1953 opúsculo de António Maria Lisboa, Isso Ontem Único, e no mesmo ano, o do falecimento deste poeta aos 25 anos, deu ainda a lume o manifesto do grupo dissidente, A Afixação Proibida, com colaboração de Pedro Oom, de Lisboa, de Cesariny e de Risques Pereira e que foi distribuído no ano seguinte. Esta última edição constituiu a primeira fricção nas relações entre Luiz Pacheco e os membros do grupo, logo Mário Cesariny, pois em nota editorial, em extra-texto intitulado “Rompimento Inaugural”, o responsável pela edição desvincula-se dela, parecendo seguir de perto o que já O’Neill dissera na nota prévia da sua estreia poética em livro, Tempo de Fantasmas (1951) – a aventura surrealista não tinha em Portugal significado. Não obstante esse ponto de perturbação, que podia ter originado uma quebra duradoura, as relações de Pacheco e de Cesariny recompuseram-se e correram, nos anos seguintes, próximas e sem dissídio. Luiz Pacheco foi nessa época, e num período ainda considerável que vai de 1952 a 1957, o primeiro editor das obras de Mário Cesariny – que antes apenas dera a lume um poema em opúsculo, Corpo Visível (1950), edição de autor. Quatro obras fundamentais do Cesariny poeta são editadas nessa meia dúzia de anos pela chancela de Luiz Pacheco, Contraponto: Discurso sobre a Reabilitação do Real Quotidiano (1952), Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos (1953), Manual de Prestidigitação (1956) e Pena Capital (1957).
Por sua vez Mário Cesariny, que entre 1958 e 1962 se responsabilizou por um conjunto de livros a que chamou “a colecção em 1958”, foi o primeiro a editar em livro, ou em opúsculo, nessa colecção, o escritor Luiz Pacheco, com Carta Aberta a José Gomes Ferreira, edição que tudo indica ser de 1958 – é este ano que João Pedro George aponta para o opúsculo na biografia que escreveu de Luiz Pacheco (Puta que vos Pariu, 2011: 581). É também nesse período, o dos encontros no café Gelo, que Cesariny e Pacheco aparecem juntos na revista Pirâmide. É ainda aí, no café Gelo, que Cesariny organiza a colectânea Surreal-Abjeccion-ismo, que aparecerá em 1963, com importante colaboração “neo-abjeccionista” de Pacheco.
Tudo aponta pois para uma colaboração estreita entre os dois entre os anos de 1952 e 1963, não obstante a fricção que foi o extra-texto “Rompimento Inaugural” em 1953, a que se deve somar em 59 a troca por Cesariny da editora Contraponto, de Pacheco, pela Guimarães Editores, de Cunha Leão, levando também consigo a obra António Maria Lisboa, o que não podia agradar, nem agradou, ao proprietário de Contraponto, que fora o primeiro editor dos dois. Meteu-se pois com ele, no momento da publicação do livro Nobilíssima Visão (1959), mas à defesa, com moderação, num texto dedicado à primeira exposição plástica de M. Cesariny, que aconteceu no Porto, em 1959, na Galeria Divulgação, num texto ambíguo, “Cesariny ou do Picto-Abjeccionismo”. Mais grave foi a edição em 1962 dos dois volumes de António Maria Lisboa, feitos por Cesariny na editora de Cunha Leão. Aí Luiz Pacheco carregou nas tintas, publicando um folheto paródico, “Cesariny muito cansado”, em que moteja as ligações de Cesariny com a Guimarães.
A discórdia entre os dois, a sério, sem reposição, só acontecerá porém em 1966, com um conjunto de pontos de discórdia, que não mais reverterão e tocarão depois, em 1968, o pico. A edição de Lisboa na Guimarães foi água que passou, como se vê nas cartas que ambos trocam depois disso e na colaboração que Pacheco deu à antologia de 1963. Pouco depois de Mário Cesariny publicar em Janeiro de 1966 o poema A Cidade Queimada, este já na editora Ulisseia, Luiz Pacheco compõe e publica em Abril um panfleto, “Comunicado ou Intervenção da Província”, em que se refere à prisão de Cesariny em Fresnes no final de 1964. Relendo hoje o texto, que tem expressões como “somos nós, nós que nos queixamos e protestamos, o Cesariny em verso e eu em prosa”, não se esperaria que fosse ele o primeiro ponto sério e irreversível de ruptura dos dois. Mas foi. Cesariny não gostou de se ver associado a Fresnes e fê-lo em carta depois incluída no Jornal do Gato, e que será a derradeira que escreveu a Pacheco. Este respondeu com duas cartas, próximo do indignado. Não mais as relações dos dois se recomporão.
Nesse período, entrada de 1966, está Cesariny a ultimar aquela que podemos tomar como a primeira tentativa de fazer a história do surrealismo em Portugal, A Intervenção Surrealista, que sairá no final da Primavera. Pacheco fez recensão do livro no Jornal de Letras e Artes (n.º 251, 7 de Setembro de 1966, p. 21), “O Caprichismo Interventor do Senhor Mário Cesariny”. Na colectânea de Cesariny, A Intervenção Surrealista (1966), a presença de Luiz Pacheco é pouco menos do que inexistente. Na cronologia que abre o livro, chama-se ao episódio de 1953 “edição abusiva e distractiva”. A recensão, pelo fosso que abriu, pela guerrilha continuada e depois intermitente a que deu lugar, pelo arregimentar de partidários dum lado e do outro, tendo por consequência uma divisão irremediável nos que se agrupavam em torno do surrealismo em Portugal, merece atenção. O texto, como logo se tira do título, parte dum equívoco atribuído a Mário Cesariny, o capricho, ou o sistema dele – capricho que o dicionário define como uma “vontade súbita e irreflectida”, uma “variabilidade de gostos e de ideias” e um exagerado “sentimento de amor-próprio”. Segundo o crítico, a acção de Cesariny no domínio da historiografia do surrealismo em Portugal não passaria de frustrada precipitação, sem consequências sérias, práticas ou teóricas. Estava encontrado o mote ou o justificativo para o tom ácido e corrosivo, com que L. Pacheco avaliaria a partir daí a criação de Cesariny. A republicação do postal “Cesariny muito cansado” (Jornal de Notícias, 31-8-1967) é porventura o momento em que o embate entre Luiz Pacheco e Mário Cesariny começa a subir de tom, para vir a atingir o seu pico, pouco depois, em 1968.
Nesse mesmo ano de 1966, Luiz Pacheco publica o seu primeiro livro em circuito comercial, Crítica de Circunstância, na editora Ulisseia (a mesma que edita, pela mão de Victor Silva Tavares, A Intervenção Surrealista), com prefácio de Virgílio Martinho, logo seguido no ano seguinte por Textos Locais, este com chancela Contraponto. Virgílio Martinho, que na época, por convite de Mário Cesariny, exercia crítica regular no Jornal de Letras e Artes (é notável por exemplo a crítica que em Março de 1968 fez a livro de Agustina Bessa-Luís), transformado então em revista mensal, entregou nota sobre o livro Textos Locais para ser publicada e que acabou recusada ou esquecida por interferência de Mário Cesariny, que por essa altura deu as melhores pastas à publicação, uma dedicada por exemplo à XIII exposição internacional surrealista, que ocorreu na cidade de S. Paulo, em 1967 (n.º 258, Dezembro de 1967). No número de Maio de 1968 (n.º 261, p, 17), talvez o melhor de sempre do jornal, aparece um texto, “Esclarecimento necessário”, que muito ajuda a perceber os meandros a que o livro de Luiz Pacheco deu lugar. Reproduzimo-lo: A propósito de certos rumores que chegaram ao nosso conhecimento, desejamos comunicar o seguinte: por termos verificado pelo último trabalho que nos entregou – crítica a Textos locais de Luiz Pacheco – que a sua orientação e concepção da crítica não coincidem com as que são preconizadas pela direcção do Jornal, esta, e quantos nele trabalham, resolveram, por unanimidade, deixar de confiar ao escritor Virgílio Martinho a secção permanente que tinha a seu cargo. Cumpre-nos assinalar que tal facto não afecta a consideração pessoal e artística que Virgílio Martinho nos merece, pelo que esperamos continuar a contá-lo entre os nossos colaboradores, embora de futuro apenas a título eventual. A nota, que aparece ao lado dum poema desenho de António Maria Lisboa, não está assinada mas pode-se, sem erro, assacá-la a Mário Cesariny.
Virgílio Martinho vê-se assim afastado do Jornal de Letras e Artes, a que não regressará. Em resposta à nota dá a lume uma folha crítica violentíssima, “As funções de Cesariny”, que será distribuída mão a mão. Virgílio e Cesariny haviam sido próximos desde 1955 ou 1956, altura em que se conheceram no café Royal ou no Gelo, tornando-se Cesariny, na colecção “a antologia em 1958”, com Festa Pública, o primeiro editor de Virgílio. A folha “As funções de Cesariny”, sem data, mas dada a lume ainda em Maio de 1968, no rescaldo imediato do “Esclarecimento necessário” acima transcrito, é hoje quase desconhecida e vale por isso a pena ser transcrita: Mário Cesariny de Vasconcelos, secretário do Jornal de Letras e Artes, no exercício das suas funções de empregado escritor deste jornal resolveu suprimir arbitrariamente a crítica referente a Textos Locais de Luiz Pacheco, conquistando assim um posto policiário que o integra no senso comum e o reabilita definitivamente na ordem cultural daqui. Ou por outras palavras: Sabia que foi poeta dos bons/ Sabia que foi surrealista/ Sabia que é também pintor/ Sabia que se António Maria Lisboa/ estivesse cá ele não era assim/ Sabia que é estratega das letras e artes/ Sabia que foi do Marquês de Sade/ Sabia que mete a tesoura no Breton e até no Arthur Miller/ Sabia da sua inclinação patriótica pela Vieira da Silva/ Sabia que a Fundação Gulbenkian o queria/ Sabia que está cadáver exquisito/ Sabia que ganha a vida com surrealismo de cá/ e lá por grosso e a retalho// Sabia mas achei sempre graça/ Porque não sabia que ERA CENSOR// Agora que sei e por haver muitos/ comunico da sua recente profissão/ Virgílio Martinho.
A folha de Virgílio Martinho funcionou como um combustível incendiário nas relações entre Luiz Pacheco e Mário Cesariny. É a partir dela que se pode desenhar o ponto alto desta polémica. Virgílio Martinho terá sido a primeira vítima do tiroteio entre os dois; as relações de Virgílio e Cesariny, boas até aí, ainda em 1966 (Outubro) os dois assinam texto a propósito da morte de André Breton, não mais se recomporão. Luiz Pacheco utiliza o momento a seu favor para voltar a demolir a antologia de 1966 de Mário Cesariny em texto dado a lume no Jornal de Notícias (23-5-1968), “Da Intervenção à Abjecção”. Aproveita o texto para dar a conhecer em termos públicos episódio recente ocorrido entre Mário Cesariny e os amigos, episódio este exterior ao que aconteceu no Jornal de Letras e Artes e que nos obriga a regressar a 1965/66.
Assinalam-se neste período, final de 1965 e início de 1966, duas edições de Fernando Ribeiro de Melo, na editora Afrodite, propriedade sua, que acabam por se intrometer, ao menos a primeira delas, nas relações de Cesariny e Pacheco. Falamos de Filosofia na Alcova de Donatien Alfonse François de Sade, com prefácio de Luiz Pacheco e ilustrações de João Rodrigues, que se suicidaria de seguida, em 1967, e de Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia e em que Cesariny colabora. Ambos os volumes foram incriminados na justiça, por abuso de liberdade de imprensa e ofensas à moral pública, com processos demorados e penosos, que resultaram, no caso de Sade, na condenação em finais de 1967 do editor, do tradutor e do autor do prefácio, e no caso da antologia, na condenação em 1970 do editor, da organizadora e dalguns colaboradores, um deles, Mário Cesariny. Ora a propósito do primeiro, por causa do processo judicial a que deu lugar, correu já no princípio de 1968, ou ainda no final do ano de 1967, um baixo assinado sobre Sade, Affaire Sade Ici, que foi assinado segundo a informação de Luiz Pacheco por Ricarte Dácio, Virgílio Martinho, António José Forte e Ernesto Sampaio. Solicitado a subscrever, Cesariny recusou, o que levou a novas picardias de Luiz Pacheco no texto do final de Maio do Jornal de Notícias já atrás referido.
Vale a pena citar do texto de Luiz Pacheco o passo que se refere a este episódio, já que dele resultará um texto quase desconhecido de Mário Cesariny. Diz Luiz Pacheco: E quando a presença de Mário Cesariny de Vasconcelos é solicitada para o seu não discutível (e nobre, repito) anterior papel de Papa (nem havia de ser preciso solicitar-lha; devia ser ele o promotor, o primeiro a correr, a assinar), Sua Eminência Parda desliga o telefone, e por medo; caso passado há poucos meses, do qual invoco, como testemunhas, porque não assisti ao “fenómeno”, Ricarte Dácio, Virgílio Martinho, Ernesto Sampaio, António José Forte, signatários responsáveis pelo dito manifesto. Concluindo: da intervenção, Mário Cesariny passou à abjecção.
Cesariny, se deixou passar em branco, sem resposta, a folha de Virgílio, não ficou quieto ante as diabruras de Luiz Pacheco no Jornal de Notícias, produzindo de imediato, ainda no mês de Maio, um panfleto de três páginas, sem título, sem indicação de tipografia e de tiragem, assinado por Mário Cesariny/ Maio-1968. É um texto raro, de seis parágrafos e quatro notas finais, que reproduzi na íntegra no epistolário de Mário Cesariny, Cartas para a Casa de Pascoaes (2012, pp. 27-30), já que nunca havia sido reproduzido pelo autor em qualquer livro seu. Trata por um lado da crítica demolidora de que A Intervenção Surrealista foi alvo no texto do Jornal de Notícias e por outro do manifesto a favor de Sade, que se recusou a assinar. A propósito deste acaba por tocar ou mesmo impugnar a edição portuguesa de Filosofia na Alcova de Donatien Alfonse François de Sade, que é o segundo livro de Sade a surgir em Portugal, sendo primeiro uma edição de Luiz Pacheco na Contraponto, Diálogo entre um Padre e um Moribundo (1959), em tradução de José Manuel Simões. Cito: É realmente como cidadão que achei uma conversa de pássaro bisnau aquele papelinho e o seu propósito de dignidade, como acho uma borrada das maiores a operação portuguesa que lhe deu origem, a autêntica associação de malfeitores que promoveu a primeira e já agora única edição mundial idiota de La Philosophie dans le boudoir, de Sade, filha maneta de um comerciante excitado, de um prefaciador em apuros, de um tradutor merdoso que despacha para o preto que eu não sei quem é e de um ilustrador a milhas de distância.
Fernando Ribeiro de Melo, o “comerciante excitado” que produziu a segunda edição portuguesa de Sade, não se ficou. Em Junho de 1968 faz sair novo panfleto, As Avelãs de Cesariny, duas folhas tipográficas e três páginas de texto. É uma das peças mais cruéis deste tiroteio cruzado e múltiplo. Para defender a edição que fez de Sade, cita a folha de Virgílio Martinho acusando Cesariny de censura e resvala para a homofobia contra Cesariny e Cruzeiro Seixas (tratado por Cuzeiro Seixas), que nesta guerra ficou na trincheira de Cesariny, o que nem sempre aconteceu noutros embates. Conheço e tenho cópia do folheto, que deve ser raríssimo e de que citei uma ou duas passagens no volume Cartas para a Casa de Pascoaes (2012, pp. 114-115). Abre do seguinte modo: De Mário Cesariny de Vasconcelos, grande poeta surrealista-funcionário-Censor do Jornal de Letras e Artes, ex-delegado-delegou-se do Breton para o Café Gelo (…). E termina: Muito bem, Sua padreca! O tópico machista da homofobia é em exclusivo seu, pois nem Pacheco nem Virgílio o usam nas diatribes contra Cesariny.
Depois disso o fogo suspendeu. Fale-se em trégua. É a altura em que o processo movido a Ribeiro de Melo, a Natália Correia e a Mário Cesariny avança em tribunal plenário, levando à condenação dos três em 1970. Luiz Pacheco continua porém de quando em quando, nos jornais, a atirar uma seta ervada contra Cesariny, como se vê no texto “O que é feito do Argelino” (Diário Popular, 24-8-1972). Não passam porém de pequenas faíscas soltas, que não chegam para reatar a saraivada de bala que cortou em várias direcções em 68. Cesariny, tanto quanto se percebe, permanece impassível, não dando sinal das pequenas ferroadas que de vez em vez Luiz Pacheco lhe ferrava.
No início de 1974 surge a publicação de Pacheco Versus Cesariny, vasta compilação dos materiais que constituem o terreno minado desta guerra. Pelo volume, pela transcrição das cartas pessoais que aí se apresentam, pela organização e notas o livro terá demorado o seu tanto a organizar, tanto mais que Luiz Pacheco fez neste período as primeiras desintoxicações sérias de alcoolismo, e foi decerto pensado no rescaldo da mortandade de 1968. Reúnem-se no livro algumas das peças fundamentais das relações de Luiz Pacheco e Mário Cesariny. O livro abre com o extra-texto de 1953, “Rompimento Inaugural” e fecha com uma carta de Manuel de Lima (20-11-1972) a Luiz Pacheco. Além de transcrever muitas cartas de Cesariny, de Virgílio Martinho, de Cruzeiro Seixas, de António José Forte, de Manuel de Lima, de Bruno da Ponte, de Victor Silva Tavares e de Ricarte Dácio, republicam-se os textos cruciais de Pacheco sobre Cesariny, desde “Cesariny ou do Picto-Abjeccionismo” até “Da Intervenção até à Abjecção”, passando por “Cesariny muito cansado” e pelo “Caprichismo Interventor do Senhor Mário Cesariny”, todos atrás referidos. Ao conjunto acrescentam-se textos pouco conhecidos, ou mesmo inéditos, mas de grande pertinência para a polémica, como esse paródico “Cesariny, o Esfrangalhador?... Homessesa!”, que termina com um muito cáustico grito de guerra: Real, real, por Dom Cesariny I, o Esfrangalhador de Portugal! Ou do Freixial. Por um momento a labareda parece voltar a pegar em palha seca. Cesariny sente-se incomodado, deixa cair o perfil impassível que mantivera nos últimos tempos e organiza o seu volume de controvérsia, a que chamará Jornal do Gato e a que dará subtítulo contribuição ao saneamento do livro Pacheco versus cesariny edição pirata da editorial estampa colecção direcções velhíssimas. Mais tarde, substituirá este letreiro por um mais simples e eficaz, Jornal do Gato (resposta a um cão). A polémica parece subir de tom mas tudo o que encontra é o seu símbolo zoológico. Desse ponto de vista as emoções baixam enquanto as imagens sobem, acabando por tomar conta do espaço e do tempo.
Que ficou desta polémica? Tal como por ora está, pode dizer-se que este embate, nos seus diversos momentos, na polifonia das suas vozes, dá a conhecer alguns dos intervenientes do surrealismo em Portugal, ajudando a perceber melhor as questões por eles tratadas. Não é por um acaso insignificante que a literatura de Sade se torna a peça fundamental do jogo, aquela que está na origem do seu momento mais explosivo, em 1968. A carta crucial deste jogo parece-me reveladora antes de mais da liberdade sem peias nem teias do grupo.
Uma guerra tão desgastante como a que opôs Pacheco e Cesariny pode levar o leitor desprevenido a encará-la como divisão inconsequente dum grupo pequeno e fechado, que assim perdeu alcance e força diante doutras correntes culturais do tempo, em primeiro lugar o neo-realismo, em cujo seio estavam proibidos, por ordem superior, os dissídios internos, e sobretudo a sua pública exposição. Vale a pena consultar a revista Vértice, o órgão do grupo neo-realista que se publicou a partir de 1940, e onde a polémica interna é por sistema evitada e, quando existe, parece que se processa de forma surda, quase às escondidas. O que interessava ao neo-realismo era aparecer como um bloco frentista sem fissuras, com uma aparência de coesão e de unidade que nada podia quebrar. As polémicas internas são por isso abafadas. No grupo dos surrealistas passa-se o contrário. A desavença entre Pacheco e Cesariny rachou a meio, na praça pública, aos olhos de todos, com folhas volantes e artigos em páginas de importantes jornais, os surrealistas. A situação foi aproveitada com gosto pelos neo-realistas, que assim puderam acusar de fratricidamente degradante um grupo rival. Em voz baixa ou mesmo alta fazia-se passar a ideia que um colectivo onde estalavam as biscas de Pacheco e de Cesariny não merecia qualquer crédito como oposição à cultura dominante.
Encarada desta forma a polémica perde porém o seu núcleo mais característico. Trata-se em primeiro lugar de libertar a verdade instintiva, de falar sem calar, de expressar sem recalcar, dando assim origem a uma franqueza interior total, sem censuras, base fidedigna dum diálogo leal e sem hipocrisias. É por esse motivo que esta vasta e demorada polémica entre dois dos mais talentosos escritores do século XX português pôde libertar uma riquíssima inventiva linguística, com essa anedota sublime que é o esfrangalhador do Freixial e esse momento poético, quase trágico, que é jornal do gato. Deste ponto de vista a polémica mostra um aspecto individual libertador que seria lastimável esquecer e ganha ainda um suplemento de catarse sublimatória, caso raríssimo no género em causa, muito marcado, mesmo em meio burguês e convencional, por uma improvável liberdade de linguagem mas também por uma subalternação que depressa leva esta liberdade ao esquecimento.
Na verdade, para bem dizer, Pacheco e Cesariny são dois dos raros que em tempo de censura, a do regime e a do neo-realismo, que não admitia fissura, tiraram a mordaça e disseram o que lhes dava na real gana. Nesse sentido o embate ficará para a história e para a memória com um dos exemplos mais gratificantes de libertação verbal, ganhando assim o estatuto de acto poético.

ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO (Portugal, 1956). Poeta, ensaísta e editor. Estudioso do Surrealismo e da obra de Teixeira de Pascoaes. Em poesia publicou Murmúrios do mar de Peniche (1977), Corpos celestes (1990) e Estâncias reunidas: 1977-2002 (2002). Entre os títulos ensaísticos destacam-se Viagem a Pascoaes (2006) e Notas para a compreensão do Surrealismo em Portugal (2012). Atualmente dirige a revista A Ideia. Contacto: acvcf@uevora.pt. Página ilustrada com obras de J. Karl Bogartte (Estados Unidos), artista convidado desta edição de ARC.

Agulha Revista de Cultura
Fase II | Número 11 | Junho de 2015
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