segunda-feira, 6 de junho de 2016

Agulha Revista de Cultura | Fase II | Número 17 | Editorial



• BRASIL E AMÉRICA LATINA: BAILE DE MÁSCARAS

1. O mercado editorial (vamos nos limitar ao Brasil, onde já temos problemas suficientes) se divide em duas estimativas referentes à prosa e ao verso. Esta simplesmente não funciona, enquanto que na outra cabe tudo. Foi sempre assim, de modo que não há motivo para espanto. Igual comportamento existe tanto em relação à produção interna quanto ao ingresso de autores estrangeiros. Até poderia dizer que não se trata de ausência de critério, mas sim de um critério estritamente financeiro, de retorno imediato, não fosse a forma aturdida como títulos são postos à venda. A própria ausência de coleções dedicadas a um ou outro veio da literatura já é reflexo da completa falta de meta literária. Tampouco é um retrato atual do Brasil, pois sempre foi este o cenário encontrado em nossas livrarias, bem antes delas terem se convertido em lojas de conveniência. Podíamos evocar uma relação inconsequente entre Estado e mercado privado. Neste caso o Estado erraria duplamente: por não ser um Estado editor e por contemplar com isenção de impostos livros que não contribuem em nada com as necessidades culturais do país. Ou seja, a ausência de regras legítimas por parte do Estado, incluindo aí sua indispensável ação como principal responsável pela recuperação de acervo literário, deixa o mercado privado livre para abastecer prateleiras com um enxame de subliteratura, seja brasileira ou estrangeira. Mas insisto. Não há novidade nisto.
A rigor, não melhoramos ou pioramos. É um processo estagnado, intocável, cuja impressão de melhora ou piora está diretamente relacionada com aspectos como demografia, tecnologia e simpatia. País com profundíssimo abismo social, temerária insuficiência educacional e um decorrente e suicida sentido oportunista de nossa elite intelectual, nada poderia ser diferente. A disparidade entre poder aquisitivo e mínima qualificação cultural responde por uma parte substanciosa do problema. E por absoluta e criminosa ausência do Estado o mercado privado se porta como um gigolô. Não há outro termo e tampouco cabe espanto.
Neste cenário, o que temos que fazer aqui é avaliar que tipo de comportamento o mercado editorial teria em relação à literatura latino-americana. A menos que fôssemos pautados por uma beatífica ingenuidade ⎼ ingenuidade, no entanto, é talento que o clero jamais teve ⎼ eu diria que seria a mesma relação. Ou seja, o mercado não se porta de modo distinto do que é estimulado pelo Estado. Não apenas a literatura, mas a cultura artística latino-americana como um todo, sempre foi um caso menor, quando não de todo inexistente, aos olhos do Estado no Brasil. Não temos programas de integração cultural em âmbito continental (do estímulo à pesquisa à realização sistemática de simpósios e outros eventos etc.). O programa de apoio à tradução da Fundação Biblioteca Nacional, por exemplo, tem regras elásticas em relação ao conteúdo e ínfimas no que tange ao valor irrisório ofertado por uma prática profissional injustamente desqualificada.
Revistas literárias ou de cultura que poderiam aqui ser evocadas e que, de alguma forma contribuem com este papel integrador, duas delas, uma institucional e outra de caráter privado, respectivamente Poesia Sempre e Agulha Revista de Cultura, são insuficientes se pensarmos na extensão do cenário que deveriam atingir. As duas plataformas, impressa e virtual, já quase de todo se perderam, sobretudo a primeira, no pântano voraz das apostas imediatas de mercado. A Universidade brasileira eu diria que desconhece ⎼ ou pelo menos não demonstra sabê-lo ⎼ o papel que deveria representar, ampliando o cenário de uma sociedade preocupantemente não organizada. Mas tampouco aqui há novidade. Sempre brincamos com fogo, embora eu me recuse a aceitar esta como uma característica nossa e que a mesma seja incorrigível.
Como não reconhecemos nosso papel em uma cultura local, é impensável exigir que saibamos nos impor em um ambiente internacional. Não o fazemos na política ou na economia, já o sabemos, porém é sempre bom lembrar que a precariedade que determina tais inações tem raízes na formação cultural, a começar, inevitavelmente, pela educação. Velha tecla política, utilizada como um jargão de campanha, retaliada de formas as mais criminosas. Voltemos então ao ponto de partida sugerido por este encontro. Nossa relação com a América Latina, da qual fazemos parte, assim como metade do Canadá e boa parte do Caribe. Comentei sobre comportamento distinto do mercado editorial em relação à prosa e o verso. Acho até natural, sob a ótica de um ambiente cultural que reconhece potencial de venda majoritário na oferta de uma prosa que envolve narrativa, ensaios, entrevistas, biografias, roteiros de cinema etc., em contrapartida à oferta do verso, que se resume ao poema e à dramaturgia. O que não soa nada natural é a aposta de conteúdo, as escolhas do mercado, serem pautadas por deliberação imediatista de reposição de custos, quando bens de mercado se confundem com patrimônio cultural.
De qualquer modo, em algum momento eu deveria evocar alguns nomes. Começo pela prosa, cujos valores capitais do chamado boom da literatura hispano-americana foram quase todos aqui editados pela Civilização Brasileira, por uma pioneira iniciativa de Ênio da Silveira, filão mágico que deixou de fora alguns poucos nomes. Aqui eu gostaria de me referir ao fascinante romance Isla mágica, do panamenho Rogelio Sinán, uma das máximas peças do ciclo do realismo fantástico que não tivemos até hoje oportunidade de conhecer. A prosa ensaística latino-americana é quase inteiramente uma desconhecida nossa, o que pode passar a falsa ideia de que, além do mexicano Octavio Paz, do argentino Borges ou do peruano José Carlos Mariátegui, não há pensadores na extensão francesa e espanhola de nosso continente. Evidente que um ou outro nome pode me escapar, eu próprio traduzi livros fundamentais de ensaios do nicaraguense Pablo Antonio Cuadra e do argentino Aldo Pellegrini, assim como traduzi dois volumes recolhendo entrevistas dadas por Borges à imprensa local dos países que visitava para dar conferências.
Mas não estamos tratando de particularidades e sim de um agravante plano geral. A narrativa mais contemporânea que adentra o país já é fruto de outra tática, a de acasalamento entre romance e cinema. Acerca do pensamento latino-americano, até onde essa generalização pode resultar em algo inteligível, desconhecemos particularidades do que se passa em cada um dos mais de 20 países que conformam essa suposta identidade cultural, em grande parte por nossa presunção histórica, o que nos fez, de algum modo em idêntica célula, desprezar a cultura dos países de língua portuguesa, a começar por Portugal.
Tenho que retornar ao aturdimento inicialmente referido. Esta não foi uma atitude consciente de quem quer conquistar um lugar próprio. Foi, antes de tudo, a manifestação de certa vergonha por não pertencer a um mundo melhor. E historicamente, o mundo melhor, ao menos na raiz do problema aqui identificado, era determinado, não pelo idioma, mas sim pela força operadora de estações como França e, logo posteriormente, Estados Unidos. Ainda hoje sonhamos com a representatividade da literatura francesa, sem considerar a vultosa baixa de qualidade da mesma nos últimos 50 anos. E desconhecemos tanto da literatura de língua inglesa (cuja extensão alcança países em todos os continentes) que mesmo no caso dos Estados Unidos nos perdemos em um sem-número de carências. Tampouco o cinema tem funcionado como um diplomata eficaz, pois as citações destacadas da obra do venezuelano Eugenio Montejo e da sul-africana Ingrid Jonker jamais foram revertidas na publicação de seus livros entre nós.
Assim já passamos para a poesia, onde a penúria é maior. Como o Estado se exime de preservar a obra completa de nossos autores clássicos, e o único parágrafo legal que constitui sua defesa é a inclusão do autor na condição de domínio público, os raros casos em que encontramos a íntegra de uma obra ao dispor do público vem da iniciativa privada. O Estado brasileiro, é o que se depreende, não tem uma cultura a ofertar ao mundo. Não temos um patrimônio cultural que corresponda à nossa posição em um mapa internacional de consequências estéticas. Claro que sabemos a importância ⎼ e o reconhecimento internacional ⎼ de nomes como Carlos Drummond de Andrade, Maria Martins, Vicente do Rego Monteiro, João Guimarães Rosa etc. ⎼, porém sabemos que tais destaques jamais foram trunfos de uma iniciativa institucional. Vimos no ano passado fechar as portas uma editora brasileira, Cosac Naify, que desempenhou um papel de risco extraordinário em nosso mercado. Cumpriu um duplo papel, de acolhimento do fundamental tanto local quanto estrangeiro. Compreendeu, sobretudo, a exigência de um diálogo entre culturas, como forma de descoberta e fortalecimento das mesmas. Creio que esta editora, na mesma proporção em que, em outra plataforma, verificamos na Agulha Revista de Cultura, estimula, quando menos, a crença de que é possível avançar na recuperação, ou melhor, na fundação de um ambiente cultural que nos permita, brasileiros, identificar o mundo real que temos, dentro e fora de nós.
Houve um momento em que a interferência ideológica fez com que chegassem até nós alguns nomes erráticos. Deu-nos a falsa ideia de uma América comunista. Nenhuma força ideológica opera em 100% e, menos ainda, intercepta a atuação do ambiente estético, seja ele favorável ou não em relação à ideologia em curso. É uma tolice acreditar nisto. Mesmo estados revolucionários em sua magnitude deram ao mundo uma arte contrária a seus postulados. A poesia na América Latina tem parâmetros tão intensos, a exemplo das incursões no teatro da parte de Claude Gauvreau (Canadá), o épico variado segundo a visão de Aimé Césaire (Martinica) ou Pablo Antonio Cuadra (Nicarágua), a lírica transbordante de César Moro (Peru) e Enrique Molina (Argentina), os efeitos dramatúrgicos de Eunice Odio (Costa Rica) e Marosa di Giorgio (Uruguai). Outros nomes que desconhecemos: a paixão descarnada da poética do chileno Enrique Lihn, o labirinto verbal de um argentino fascinante: Roberto Juarroz. Posso mencionar ao menos um nome fundamental à tradição literária, seja na prosa ou no verso, em cada um desses países, sem esquecer títulos ensaísticos essenciais à compreensão de sua cultura literária. Não é este o caso. Não estamos aqui para remendar uma colcha mal posta.
Parece-me que a ideia seja destacar o possível e o impossível nessa relação entre Brasil e América Latina. Uma síntese diria que ela é o possível tornado impossível. Isto não nos ajuda em nada. O dano já está feito. A questão é, se o tema desperta interesse, o que podemos fazer a partir de agora.
São dois, portanto, os desafios que temos no Brasil em respeito a este tema: a ousadia da realização de ações que apontem em tal direção e a firmeza de descobrir mecanismos que garantam a sua manutenção, a sua permanência. Exemplifiquemos alguma boa ajuda:
Quando fui o curador da 8ª edição da Bienal Internacional do Livro do Ceará, em 2008, trouxemos, para seu ambiente comercial, dezenas de editoras hispano-americanas e houve acolhida de mercado para todas elas. Como ressaltava então o informe geral do evento, “O tema da 8ª Bienal Internacional do Livro do Ceará é A aventura cultural da mestiçagem’, o qual abrange duas comunidades linguísticas: a portuguesa e a espanhola e, ainda, suas manifestações artísticas e culturais, totalizando 30 países situados em quatro continentes: África, América, Ásia e Europa. A ousadia de tal abrangência desloca o foco habitual das programações literárias de outros eventos similares, concentrando-se aqui em evocar a multiplicidade de culturas e a condição mestiça de suas raízes. […] A área de expositores da 8ª Bienal Internacional do Livro do Ceará, considerando a abrangência de seu tema central, contará com um expressivo número de expositores também dos países envolvidos, influenciando assim em uma maior integração entre as literaturas de línguas portuguesa e espanhola. Um diferencial expressivo nesse caso é a criação de um espaço intitulado "Ilha dos Continentes", cuja área de 234 m² destina-se a receber editoras estrangeiras que, em geral, não dispõem de condições de participar de eventos internacionais.” Não houve, contudo, determinação institucional de avançar em tal plano de integração.
Outra ação a sugerir tem a ver com o estímulo à criação e pesquisa, bem como a um planejamento de manutenção sistemática de acervo e criação e renovação de espaços culturais. Vejamos por exemplo o FONCA – Fundo Nacional para a Cultura e as Artes, no México. Criado em 1989, a este Fundo foram dadas as seguintes tarefas: apoiar a criação e a produção artística e cultural de qualidade; promover e difundir a cultura; incrementar o acervo cultural e preservar e conservar o patrimônio cultural da nação. Cabe a ele, por consequência, “investir em projetos culturais profissionais que surgem na comunidade artística; assim como ofertar fundos para que os criadores possam desenvolver seus trabalhos sem restrições, afirmando o exercício das liberdades de expressão e criação”, segundo informa o portal da Secretaria de Cultura do México.
Outro aspecto a ser anotado é a condição de um Estado editor. E aqui nos valeria o exemplo venezuelano da criação de sua monumental Fundação Biblioteca Ayacucho. Logo no primeiro parágrafo do informe com que abre seu portal na Internet, encontramos a clara afirmação: “A Biblioteca Ayacucho é um dos sucessos editoriais de maior transcendência no âmbito cultural latino-americano. Desde sua criação, em 1974, tem fortalecido seu propósito fundamental: manter em permanente atualidade as obras clássicas da produção intelectual do continente, desde os tempos pré-hispânicos até as expressões mais destacadas do presente.” Atuando com um ousado projeto editorial que engloba sete coleções, destaco aqui duas delas, que bem ilustram o tema de nossa conversa. A “Coleção Expressão Americana”, que toma emprestado título de uma obra fundamental de José Lezama Lima, encontra-se destinada a ampliar a temática e os interesses das obras publicadas pela Biblioteca Ayacucho mediante a edição de livros de relevo memorialista, biográfico, autobiográfico e outros materiais de índole pessoal, assim como trabalhos de natureza ensaística, tratando de encontrar, nos diversos registros da prosa, uma sustentada discussão e meditação estética ao longo da história da cultura escrita em nosso continente. Outra delas, a “Coleção Futuro”, por sua vez, dedica-se à atualidade inovadora das letras venezuelanas, incluindo, preferencialmente antologias regionais de autores já reconhecidos e valorados pela crítica alerta, porém que requerem maior atenção e difusão. Busca, portanto, editar escritos que configurem o fazer literário atual e que se projetem com força criativa no horizonte do novo, onde são gestadas as tendências da escritura continental.
Outra sugestão seria a da criação de um fundo editorial que garantisse a publicação de revistas de criação e reflexão, com pauta substanciosa, que se reportasse ao ambiente cultural e artístico na América Latina.
O Memorial da América Latina, localizado em São Paulo, deu um passo valioso no sentido de estimular o conhecimento do ambiente cultural em nosso continente, através da criação de sua Biblioteca Virtual da América Latina. Ali podemos nos inteirar do que ocorre em diversos países hispano-americanos, o que por vezes chega a ser frustrante descobrir que nos falta um mínimo de seriedade e determinação para realizar ações em vários desses países já existentes. Temas que vão desde a profusão de revistas literárias que se publica no México até a atuação da REIC – Rede de Editoras Independentes da Colômbia, assim como o catálogo de edições impressas e sua coleção virtual no caso da Biblioteca Nacional do Chile etc. Notadamente há um mundo beirando o infinito pela frente e estamos todos de acordo (creio) que a pedra fundamental a ser dada é de ordem institucional.
Qual papel deve desempenhar o Estado, através de seu Ministério das Relações Exteriores, por exemplo, através dos Centros de Estudos Brasileiros existentes em todas as capitais dos países latino-americanos. Que contas do Estado tem cobrado a população em relação a tais temas. Como artistas e intelectuais se envolvem com esse ambiente. A partir desse fio sem roca é que começamos a entender que o dilema não é somente institucional. O Brasil permanece com os horizontes fechados para o que diga respeito à América Latina. O Estado deveria estimular a integração cultural e não o faz. A classe intelectual deveria denunciar tal inoperância e não o faz. Impossível, portanto, separar o joio do trigo, se ambos não aceitam o que são. Concluiria parafraseando Rubén Darío ao afirmar que conhecer outras literaturas é o melhor que temos a fazer para nos livrarmos da tirania de algumas delas.

2. Diz o poeta Francisco Madariaga (Argentina, 1927-2001) que “todo escritor deve resignar-se a que o entendam mal, equivocada ou maldosamente”. A que potência elevar tal resignação quando o cenário é a América Latina? Não creio que se deva insistir mais em uma identidade cultural latino-americana. Se o que temos é de fato aquilo que somos, não passamos de um arquipélago disperso, fraturado em várias vértebras. O mais que se diga soa como falácia protocolar entre nossos governos. A identidade pressupõe conhecimento mútuo, diálogo, destino compartilhado. No caso da América Latina, mesmo o “destino compartilhado” se faz de forma isolada, daí que seja mais sofrido do que propriamente vivido.
Se é verdade que a poesia constitui um perigo ante toda pretensão totalitária, é também verdade que os poetas precisam descobrir e praticar a perversão deste perigo, ou seja, agir de acordo com a prazerosa aceitação de sermos tão perigosos - isto se, de fato, o somos. Este exercício de perversão requer tão-somente uma ousadia na escritura, uma autonomia estética, uma plenitude de gozo próprio.
A democratização de uma cultura, a exemplo da fábrica de sonhos de Hollywood, arrasta-nos a uma situação de debilitação desta mesma cultura. Em países absurdamente pobres como os que constituem a América Latina, a democratização acaba implicando em um rebaixamento do nível de entendimento da realidade. Esta astuciosa ótica democrática não visa senão lucros. Na ourivesaria da cultura o refinamento dá-se justamente a partir da comparação, ou seja, a fricção que gera todo diálogo.
Cabe a cada um de nós um exercício mínimo de autoafirmação, algo que nos distinga e permita o requinte humano da dúvida e novas insolências. Tal exercício, contudo, não sobrevive em isolado da autocrítica. Quando perdemos contato com uma das margens deste rio universal dos seres, sentimo-nos ora impotentes sem sê-lo, ora geniais em nosso aberrante provincianismo. O fato é que só a diferença atualiza e confirma a existência humana. E não se pode pensar em identidade cultural sem a compreensão de sua diversidade ulterior.
Ao tratarmos de uma cultura continental, como é o caso da América Latina, importa-nos, sobretudo, a diferença, a multiplicidade de raízes e a qualidade do diálogo mantido entre si e com o mundo a seu redor. A indústria cultural sente-se hoje uma resposta natural para o desenvolvimento da cultura em todo o mundo. Contudo, o que se tem desenvolvido são as receitas e os estímulos ao surgimento de uma arte medíocre que assume conotação de bem cultural, graças ao artifício de novas imposições do capital.
Não importa quantos milhões de exemplares vendem Gabriel García Márquez ou Jorge Amado. Não importa que Pablo Neruda e Octavio Paz tenham ganho o Nobel de Literatura. Formas distintas (alheias) de aceitação não nos levam a um reconhecimento de nós mesmos. Importa-me o estoicismo de uns anônimos ou pouco reconhecidos empenhos na discussão de uma literatura latino-americana. Em grande parte são diretores de jornais ou revistas. Alguns são escritores, outros jornalistas respeitosos. Têm sido os artífices incorrigíveis dessa ponte pênsil que supõe ligar a cultura latino-americana entre si.
Este é o primeiro passo: a compreensão e aceitação de si mesmo. A América Latina chama-se Euclides da Cunha e José Lezama Lima, Jorge Luis Borges e César Vallejo, Guimarães Rosa e Rubén Darío. Isto é certo, ainda que não tenhamos a exata ideia do contributo estético desses autores no âmbito de um diálogo latino-americano essencial. No entanto, a América Latina chama-se também República Dominicana, Costa Rica, México, Colômbia, Equador, Bolívia. Todos os países que a constituem, sem exceção, deram importantes contribuições à constituição de uma identidade cultural latino-americana.
Todos estes países sofreram o peso da história das colonizações. Foram isolados entre si por uma astuciosa estratégia. O que antes era autoritarismo político converteu-se em jogo mercadológico. O isolacionismo franqueia o desnorteamento. O desnorteamento gera receitas para a indústria cultural. As receitas da indústria cultural fazem os governos se sentirem participantes da cultura. Já vimos que assim o mundo todo vive feliz.  Quando pensamos em América Latina o assunto é: narcotráfico, corrupção, o inferno verde em que transformaram a Amazônia etc.
Se falamos especificamente em cultura, surgem menções a programas governamentais do tipo o velho Mercosul. Contudo, a razão de ser de programas dessa ordem é econômica e não cultural. Os encontros culturais latino-americanos habitualmente realizados talvez entendam melhor do assunto, embora se resumam quase sempre em mero exercício retórico. A presença efetiva que possa representar um intercâmbio centra-se na circulação de revistas e jornais de cultura. Assim nossos países se comunicam. Assim descobrimos que nem tudo é Neruda ou Amado.
Posso sentir-me à vontade para tocar neste assunto, pelo diálogo intenso que tenho mantido com cada um dos países que compõem a América Latina. Exemplos: com frequência o argentino Diario de poesía interessa-se pela literatura uruguaia; no México a revista Blanco Móvil dedica número à literatura brasileira; a literatura chilena está sempre presente no boliviano Presencia literaria, assim como a paraguaia visita com frequência as páginas da portorriquenha Exégesis. Seus diretores, respectivamente Daniel Samoilovich, Eduardo Mosches, Jesús Urzagasti e Marcos Reyes Dávila, têm feito muito mais pela cultura latino-americana do que todos os programas e desprogramas de governo.
Contudo, o que neles funciona como uma situação essencial de reconhecimento e diálogo, no Brasil não ultrapassa a marca do acaso (geralmente definido pela influência de alguém junto ao cartel editorial). O Brasil é o país menos afeito a uma discussão em torno da suposta identidade cultural latino-americana. Mais ainda: jamais nos sentimos integrantes da América Latina. Somos algo que não deu certo, mas que não pretendia ser América Latina. Talvez um café parisiense ou uma praça novaiorquina. Nossos escritores não dialogam com seus pares. Todos aspiram a descobrir a Europa que acreditam trazer dentro de si. Em alguns casos serve os Estados Unidos.
A discussão em torno de uma identidade cultural latino-americana torna-se risível a partir do momento em que os brasileiros sentam-se à mesa. A América Latina nunca nos interessou. Na biblioteca do Mário de Andrade, por exemplo, encontramos livros de vários poetas sul-americanos e mexicanos que lhe foram autografados. Jamais fez menção pública a um possível diálogo com esta poesia. Uns poucos poetas (César Vallejo, Pablo Neruda) trazidos a nós pela “Geração de 45” o foram sem respaldo tradutório aceitável. Os concretistas impuseram seu programa estético, desvirtuando as leituras mais abrangentes que poderíamos ter da poesia de Huidobro, Paz e Girondo.
O Brasil é um grande caos estético. É como um filho de pai desconhecido, que não sabe a quem puxe. Nossa paternidade é fundada por um princípio de identificação. Temos que deixar de ser a grande dama errante do planeta. Este país precisa existir. Ou desistir disto de uma vez por todas. Se a identificação tende a uma busca de unidade com a América Latina, temos então muito que aprender. Não fico com outra sugestão senão a ousadia do diálogo. Deixar de enviar escritores medíocres para os encontros culturais da América Latina, ou seja, tratar respeitosamente estes encontros, que são sistemáticos e efetivos. Trazer a América Latina para dentro de nós. Assumir a fragmentação imposta por instâncias outras, tomar ciência dela e reagir.
Enquanto isto, poetas e diretores de inúmeras publicações em toda a América Latina seguirão fiando e desfiando uma unidade impossível, exceto pelo brilho de sua diversidade. Não se trata propriamente de poesia, narrativa ou jornalismo. O básico é entendermos que não há América Latina senão no ajustável conceito da indústria cultural. Para fundarmos uma identidade cultural, aceita como latino-americana, temos antes de tudo de nos conhecermos, que sentarmos à mesa nem que seja para uma cerveja. A falta de diálogo afunda um povo em sua mediocridade. Só o diálogo funda uma cultura.

NOTA
Floriano Martins (Brasil, 1957). Fundou e dirige a Agulha Revista de Cultura, bem como o selo editorial ARC Edições. Esta conferência foi proferida no Salão do Livro de Guarulhos (São Paulo, maio de 2016).

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ÍNDICE

AGLAE MARGALLI | La poesía mística de César Vallejo

ALFONSO PEÑA | Luis Treville Latouche y su “Museo de las piedras”

ARMANDO ROMERO | Fernando Pessoa en América Latina

CAROLINE COSTA PEREIRA | O mundo editorial de Floriano Martins

DAVID CORTÉS CABÁN | Jorge Valero, el tejedor de estrellas

ESTER ABREU VIEIRA DE OLIVEIRA | Alterações na representação teatral ao longo do tempo

FLORIANO MARTINS | Vicente Huidobro e a colheita vertiginosa da imagem poética

HAROLD ALVARADO TENORIO | Enrique Lihn

OMAR CASTILLO | Hilos para un tejido del habla en el    poema: seis en una instantánea

REGINA TEIXEIRA DE BARROS | Arte Moderna na Coleção da Fundação Edson Queiroz


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Página ilustrada com obras de Franz von Stuck (Alemanha, 1863-1928), artista convidado desta edição de ARC.

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Agulha Revista de Cultura
Fase II | Número 17 | Junho de 2016
editor geral | FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com
editor assistente | MÁRCIO SIMÕES | mxsimoes@hotmail.com
logo & design | FLORIANO MARTINS
revisão de textos & difusão | FLORIANO MARTINS | MÁRCIO SIMÕES
equipe de tradução
ALLAN VIDIGAL | ECLAIR ANTONIO ALMEIDA FILHO | FLORIANO MARTINS
GLADYS MENDÍA | MÁRCIO SIMÕES
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Um comentário:

  1. Ese editorial se podría escribir en cada uno de nuestros países. No solo el Estado, el nuevo burguesismo que en vez de atesorar cosas solo piensa en el dinero. Por lo menos los burgueses franceses queriendo imitar a la aristocracia que había derrotado durante los agitados días de la revolución se preocuparon por refinar el gusto y floreció el arte y la literatura. La gente leía y los libros circulaban. Pero la democracia o la dictocracia nuestra es de políticos profesionales o de comerciantes descarados que solo aman el dinero como dinero y no lo maravilloso que se puede comprar con él. Todo eso que dices ocurre como se ha dicho cuando la democracia dejó de ser lo que fue para los griegos: El gobierno de los mejores. Tú alcanzabas lo que tu talento te podía dar. Desde que somos representados por los peores nos jodimos. Apoyo totalmente ese valioso ensayo. No es un simple editorial, es un diagnóstico profundo de un mal latinoamericano. [Manuel Mora Serrano. República Dominicana]

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