sábado, 11 de março de 2017

Agulha Revista de Cultura | Fase II | Número 25 | Editorial

● CENTRO DE ESTUDOS LATINO-AMERICANOS FLORIANO MARTINS

Não há símbolo de poder mais forte que o livro. Muito além da ideia de domínio ou influência, o poder essencial celebra concentração e irradiação. O livro recolhe em suas páginas raiz e variáveis de todos os demais símbolos de poder: os nomes, os selos, as leis, as chaves, as máscaras, as armas… O livro é o verdadeiro poder, sendo emblema e prática de todas as perspectivas do sonho, da memória e da atitude imediata com que nos definimos a cada instante.
O livro se reconhece pelo que está escrito dentro e fora de seus nichos e antecâmaras. O livro é talvez a única fonte real de integração, ao unir – sem a mínima sombra de imposição ou corrupção – os mundos destinados a ser e estar. O livro é o que somos, porém ao mesmo tempo em que é o lugar que habitamos.
Cofre único e generoso onde aguardam visitação os segredos da humanidade. Tudo em seu íntimo está aberto e ao mesmo tempo requer uma senha. A chave de acesso ao livro é a sua leitura, o que corresponde a uma relação amorosa entre conhecimento e sensibilidade.
A leitura é uma forma tanto de tecer quanto de desvendar a rota invisível dos labirintos. Podemos esconder o mundo dentro daquilo que sabemos. Também isto o livro nos ensina. Como podemos dar abrigo a todas as formas de vida que buscam novos laços de revelação e consciência. Ou podemos apenas transformar água em vinho. O livro é o reflexo de nossa existência.
O verdadeiro autor de um livro sabe que todo ele é apócrifo. Não recordo a origem da imagem de que, assim como o lago é um abismo acrescido de água, o livro seria o mesmo abismo acrescido de letras. De saberes, corrigiriam uns. De truques, remendariam outros. Porém o abismo ainda está ali e o que a ele acrescentamos é a medida exata do que somos.
Esta é a imagem que dá conformação à casa de leitura que idealizamos, como um lugar sagrado em que crisálida e cigarra se reconheçam irmanadas e integradas à representação maior de suas vidas. Casa ou ninho, o centro do mundo é uma estação, uma passagem, a ponte que entrelaça antes e depois, as margens místicas, os vislumbres acidentados, os extremos, as dissonâncias…
Porém não podemos chegar ali e seguir viagem sem que sejamos possuídos pela intuição de que nada permanece. A intuição não é uma certeza, mas antes um estado paradisíaco em que mil realidades vagam como transparências que se superpõem. O centro é uma esfera fabulosa, repleta de círculos concêntricos e postigos iluminados pela sensibilidade de quem os frequenta.
O centro é o livro é a chave é a crisálida e cada vez que deixamos pousar uma imagem sobre outra nos reconhecemos múltiplos de um mesmo sentido determinado: a convivência. Este é o princípio que protagoniza a criação do Centro de Estudos Latino-Americanos Floriano Martins.
Sinceramente não me encabula que o mesmo leve meu nome, porque o próprio ego não é senão uma fagulha da convivência. O que me estimula a rascunhar estas palavras é outra afirmação de uma mesma personalidade: a doação do acervo inaugural desta casa é uma espécie de determinação da chama, ou seja, a de que devemos buscar contatos significativos.
Somos tocados pelas formas. Nós nos comunicamos por intermédio delas. O símbolo maior da casa é a crença na integração. O mundo se espalha por todos nós justamente em seus fragmentos. Na exata medida em que nós nos espelhamos nos insaciáveis mundos que reproduzimos a cada instante.
Os livros que aqui estamos reunindo não são matizes de um dogma, mas antes o incorruptível acúmulo de combinações de saber. Um concerto que é retrato fiel de infinitos desconcertos. Se acaso delimitamos sua área com o marco geográfico de uma América Latina o fazemos movidos pelo mesmo princípio conjugado de concentração e irradiação.
São incontáveis os mundos que cabem em um livro, na mesma inumerável impossibilidade de definir quantos mundos saem dos livros a cada leitura. Continentes e conteúdos se mesclam, na mesma proporção em que corpo e alma, na formação de novos abismos aos quais decidiremos se lhe acrescentamos água ou letras.
CENTRO DE ESTUDOS LITERÁRIOS LATINO-AMERICANOS FLORIANO MARTINS (CEL-FM)
Grupo de Pesquisa Cultura, Sociedade e Linguagem (GPCSL/CNPq)
Núcleo de Pesquisa e Extensão (NUPE)
Departamento de Ciências Humanas (DCH) - Campus VI de Caetité
Universidade do Estado da Bahia (UNEB)
Coordenação: Rogério Soares Brito (UNEB/Letras), Maria de Fátima Novaes Pires (UFBA/História) e Paulo Henrique Duque Santos (UNEB/História)
Contatos diretamente com o CEL-FM: celfm@uneb.br
Contatos com Floriano Martins: floriano.agulha@gmail.com
Telefone: (77) 3454.2021
Av. Contorno
46400-000 Caetité - BA

A doação que fiz ao CENTRO DE ESTUDOS LITERÁRIOS LATINO-AMERICANOS FLORIANO MARTINS (CEL-FM) deste que ora se afirma como seu acervo inaugural expressa um velho sonho de dar à cultura sua carga mais intensa de generosidade. O acesso a toda forma de conhecimento é uma dádiva que deve ser estendida a todos. Sempre me inquietou visitar bibliotecas particulares de escritores e ali me deparar com um acervo mudo, que não se comunica senão com seu detentor. Ao longo dos anos fui tratando de doar livros a pequenas bibliotecas, porém uma ideia maior me perseguia, a de concentrar parte significativa de meu acervo em um local único, criando condições de pesquisa e deleite, um ponto a partir do qual pudéssemos ir além, planejando palestras e outros eventos que enriqueçam o conhecimento de quem se mostrar interessado. Outro aspecto fundamental é o da diversidade de opções de conhecimento, o que me levou a constituir o presente acervo não apenas de livros, mas também de revistas, jornais, documentários e música. Sua definição como centro de estudos latino-americanos vem do fato de que esta tem sido a área mais ampla de minha produção intelectual, ao mesmo tempo em que contribui, ainda que minimamente, para o acesso ao que se produz de mais relevante em boa parte de nosso continente. O Centro, contudo, tende a ser o mais amplo e generoso possível na busca de novos vasos comunicantes. Este é, portanto, um primeiro acervo. O passo seguinte já nos leva a sonhar com doações vindas de outros escritores e mesmo de instituições, de modo a instigar o prazer pela leitura, pelo conhecimento, e consequente aprimoramento da sensibilidade.

Floriano Martins

Embora já em avançada fase de montagem, o CENTRO DE ESTUDOS LITERÁRIOS LATINO-AMERICANOS FLORIANO MARTINS (CEL-FM) deverá ter sua inauguração oficial somente no segundo semestre de 2017. Até lá todo o acervo está sendo devidamente catalogado e este registro será, a seu tempo, disponibilizado em página própria: https://www.facebook.com/centrodeestudoslatinoamericanos/. Solicitamos a escritores, editores, artistas, pesquisadores, dentro de suas possibilidades, a doação de títulos que possam engrandecer nosso acervo. Antecipadamente agradecemos à generosidade de todos.

CENTRO DE ESTUDOS LITERÁRIOS LATINO-AMERICANOS FLORIANO MARTINS (CEL-FM)
Núcleo de Pesquisa e Extensão (NUPE)
Departamento de Ciências Humanas (DCH) - Campus VI de Caetité
Universidade do Estado da Bahia (UNEB)
A/c Rogério Soares Brito (UNEB/Letras)
Av. Contorno
46400-000 Caetité - BA

O CENTRO DE ESTUDOS LITERÁRIOS LATINO-AMERICANOS FLORIANO MARTINS (CEL-FM) tem o apoio cultural da Agulha Revista de Cultura (http://arcagulharevistadecultura.blogspot.com.br/).



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ÍNDICE

ALASTAIR SOOKE | Joseph Cornell: o homem que guardou o mundo numa caixa

ALFONSO PEÑA | Zuca Sardan y la cámara de gas hilarante

ANA CRISTINA JOAQUIM | Letra pélvica: rápidas considerações sobre a Antologia da poesia erótica brasileira, organizada por Eliane Robert Moraes

ESTER FRIDMAN | Uma obra perigosa no século das luzes

FERNANDO BOGADO | La verdadera utopía de Frank Zappa

FLORIANO MARTINS | Pucuna, Pájaro Cascabel, Alacrán Azul – Tres revistas de los años 1960

HAROLD ALVARADO TENORIO | Lectura de María, de Jorge Isaacs

MARIA LÚCIA DAL FARRA | Marginália herbertiana: a “intransponível fobia epistolar”

NICOLAU SAIÃO | É assim que se faz a estória

PEDRO MACIEL | Hilda Hilst: a vida e a poesia

ARTISTA CONVIDADO | JOSEPH CORNELL | FLORIANO MARTINS | Joseph Cornell e a metafísica do efêmero




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Página ilustrada com obras de Joseph Cornell (Estados Unidos), artista convidado desta edição de ARC.

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Agulha Revista de Cultura
Fase II | Número 25 | Março de 2017
editor geral | FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com
editor assistente | MÁRCIO SIMÕES | mxsimoes@hotmail.com
logo & design | FLORIANO MARTINS
revisão de textos & difusão | FLORIANO MARTINS | MÁRCIO SIMÕES
equipe de tradução
ALLAN VIDIGAL | ECLAIR ANTONIO ALMEIDA FILHO | FEDERICO RIVERO SCARANI | MILENE MORAES
os artigos assinados não refletem necessariamente o pensamento da revista
os editores não se responsabilizam pela devolução de material não solicitado
todos os direitos reservados © triunfo produções ltda.
CNPJ 02.081.443/0001-80








2 comentários:

  1. Mais um belo número da AGULHA. Destaque para o editorial (o amor aos livros, a grandeza da doação de toda uma biblioteca e até o prazer e a satisfação desse gesto), mais as reproduções das caixas de Joseph Cornell, inclusive com textos a respeito, e ainda as considerações de Ester Fridman que passam pela filosofia e ficção. Aplaudo o meu caro amigo Floriano Floriano Martins.[Valdir Rocha]

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  2. Floriano, Viva o Centro d. E. L-A Floriano Martins!... Tiveste admirável generosidade filantrópica
    de aproxima§âo da cultura aos estudiosos e cultores das letras e... um texto excepcional
    sobre as infinitas maravilhas do Livro. Bravos! Abraxxxxxas [Zuca Sardan]

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